Vozes da Montanha: A Alma do Nosso Folclore Ressoa em Cada Nota
Sempre me fascinou a maneira como a música consegue costurar a história de um povo, um fio invisível que conecta gerações. No último fim de semana, tive o privilégio de vivenciar isso de perto no festival de música folclórica ‘Vozes da Montanha’, que aconteceu na pequena e charmosa cidade de São Bento do Amparo, a cerca de duas horas de carro de Belo Horizonte. Não foi só um evento, foi uma verdadeira imersão na alma brasileira, um lembrete vívido de quem somos e de onde viemos.
O festival, agora em sua sétima edição anual, reuniu mais de 15 mil pessoas ao longo de três dias, superando as expectativas dos organizadores em quase 20%. O palco principal, montado na praça central da cidade, foi um espetáculo à parte, com uma cenografia que remetia às fazendas antigas de Minas Gerais. Cerca de 30 grupos de música folclórica se apresentaram, vindos de diversas regiões do país, como o ‘Grupo de Catireiros do Pontal’ de Goiás, o ‘Maracatu Estrela Guia’ de Pernambuco e os ‘Cantadores do Rio Doce’ da própria Minas Gerais. Cada um trouxe um pedaço autêntico de sua terra, de sua tradição.
A Origem e a Força da Tradição
A música folclórica é a crônica cantada de um povo. Ela nasce do cotidiano, das festas, do trabalho no campo, das lendas passadas de boca em boca. Em ‘Vozes da Montanha’, essa origem era palpável. Lembro-me de uma apresentação em particular, do ‘Trio Pássaro Preto’, que executava modas de viola caipiras. Eles usavam violas feitas artesanalmente, com madeiras da região, e contavam histórias de amor e desafios do homem do interior. A autenticidade era tamanha que a plateia, em muitos momentos, cantava junto, num coro espontâneo que ecoava pelas ruas de paralelepípedos.
Os instrumentos tradicionais, como a viola caipira, o pandeiro, a rabeca e o ganzá, eram protagonistas. Havia, inclusive, uma oficina de luthieria popular, onde mestres artesãos demonstravam como construir e restaurar esses instrumentos. Aprendi que uma viola caipira de boa qualidade, feita à mão, pode levar de 3 a 4 semanas para ser finalizada e custa, em média, entre R$ 800 e R$ 2.500, dependendo do tipo de madeira e do acabamento. É um investimento na preservação de uma arte.
Impacto Cultural e Social: Além da Música
Um festival como ‘Vozes da Montanha’ vai muito além da música. Ele é um motor cultural e econômico para a região. A cidade de São Bento do Amparo, que tem cerca de 8 mil habitantes, viu sua população mais que dobrar durante os dias do evento. Hotéis e pousadas, num raio de 50 km, estavam com 100% de ocupação desde o mês anterior. Os restaurantes locais registraram um aumento de 300% no faturamento e pequenos artesãos venderam uma quantidade recorde de produtos típicos, como doces de leite, queijos da Canastra e peças de cerâmica.
Além do impacto econômico, há o social. O festival promoveu rodas de conversa com mestres da cultura popular, onde jovens puderam aprender sobre danças folclóricas, contação de histórias e culinária tradicional. Foi um espaço de troca genuína, de valorização do saber ancestral. Vi adolescentes, que antes talvez estivessem presos aos seus smartphones, dançando quadrilha com um entusiasmo contagiante. Isso é a cultura se perpetuando, se reinventando.
Os Sons que nos Conectam
Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a diversidade de sons e ritmos. Passávamos de um coco de roda animado para um lamento sertanejo, de uma cantiga de trabalho para um samba de roda cheio de gingado. Era um mosaico sonoro que pintava o Brasil em todas as suas cores. E no meio de tudo isso, havia uma sensação de pertencimento, de que, apesar das nossas diferenças geográficas e culturais, há algo que nos une profundamente: a nossa história e a nossa capacidade de contá-la através da melodia.
O festival ‘Vozes da Montanha’ não é apenas um evento no calendário. É um manifesto. É a prova de que a música folclórica está viva, pulsante e relevante. Ela nos lembra que antes de qualquer ritmo importado, temos um tesouro aqui, em casa. Um tesouro feito de cantos da terra, de vozes que ecoam das montanhas, dos vales e das planícies, e que merecem ser ouvidas e celebradas. Que venham muitas outras edições!
- Mais de 15 mil participantes em 3 dias.
- 30 grupos de música folclórica apresentaram-se.
- Aumento de 300% no faturamento de restaurantes locais.
- Ocupação hoteleira de 100% em um raio de 50 km.
- Oficina de luthieria com mestres artesãos.
- Rodas de conversa sobre cultura popular para jovens.